Em todo caso, logo me vi no final de uma longa fila, envolvido por uma massa de adolescentes e crianças. Os gritos, os rumores metálicos e a expressão mal encarada do operador faziam parecer que íamos todos para uma câmara de execuções. Para mim não era muito diferente. Ficava observando os vagões correndo pelo circuito me indagando o que aconteceria se algum deles se desprendesse dos trilhos ou se alguma peça da estrutura de sustentação se rompesse. Imagino que eu possa me considerar um sujeito
Enquanto éramos içados para o ponto mais alto da estrutura um pensamento invadiu minha mente: "Que deus nos proteja". E depois um outro: "Deus? Que deus?". Mas antes que eu pudesse responder a mim mesmo, fomos lançados numa descida vertiginosa, seguida de curvas perigosamente inclinadas, de tal modo que eu tinha a impressão que a qualquer momento minha cabeça se espatifaria numa das colunas de sustentação. Tudo isso acompanhado por gritos desesperados, dentre os quais alguns eram meus próprios.
Felizmente foi uma volta só. Saí com o corpo meio mole e um paradoxal desejo de ter mais uma dose daquelas sensações. É, adrenalina vicia mesmo.
No entanto, o que mais me chamou a atenção, aquilo que mais me intrigou, foi aquele pensamento se esgueirando sorrateiramente por dentro de mim em busca de refúgio naquele deus que desde cedo fui ensinado a procurar em ocasiões de perigo.
Já faz um bom tempo que tenho procurado não me apegar mais a este deus. Procuro não depender dele para me confortar ou me dar forças. Na minha humilde opinião, esse moço velho como o universo é simplesmente uma ilusão. Uma ilusão às vezes útil, mas que como tal carece de realidade. Mas embora intelectualmente eu não acredite em deus, lá no fundo tem um pedaço de mim que ainda crê.
Bem, não sei se 'crer' é a melhor palavra... Talvez um exemplo possa me ajudar a explicar: quando criança e por muitos anos eu não deixava meu chinelo virado, pois se o fizesse algo de muito ruim aconteceria. Então, zelava pela posição correta do meu chinelo a fim de preservar a mim e às pessoas que amava daquele grande mal desconhecido. Naturalmente, hoje em dia não acredito mais nisso. No entanto, sempre que vejo um chinelo virado sinto um certo receio e, às vezes, por via das dúvidas, não me contenho e coloco-o na posição correta.
Minha relação com deus é mais ou menos desta maneira. É uma idéia que permanece enraizada dentro de mim, como um tronco de uma árvore já cortada, do qual vez ou outra brota um pequeno galho verde.
Eu costumava me revoltar contra isso. No entanto, tal postura me causou muito mal. Com o tempo aprendi a aceitar este pequeno deus como parte de mim mesmo. Às vezes ele me causa certa impaciência - como na montanha russa - mas na maior parte das vezes me dou bem com este velhinho. Reconheço sua presença e ele parece se satisfazer com isso. E embora ele possa me dar força, coragem e determinação, procuro não invocá-lo. Pois no fim, ele é apenas uma parte de mim e como tal seu poder se limita às minhas próprias possibilidades.





0 comentários:
Postar um comentário