Por motivos particulares - os quais quem me conhece sabe bem quais são - vez por outra acabo num culto evangélico. O que deve parecer estranho. Afinal, quem acompanha esse blog (alguém por aí?) já deve ter detectado minhas inclinações budistas. Na verdade, acho que posso me considerar um verdadeiro ponto de interseção de várias tradições espirituais pois além dos elos religiosos citados a pouco, há ainda o Catolicismo no qual fui criado. Tanto que costumo dizer que sou Católico por tradição e Budista por convicção. E estou ainda pensando em incluir também "evangélico por obrigação".
Em todo caso, ontem, domingo, foi uma das ocasiões em que me vi novamente numa igreja evangélica. Confesso que isso ainda me causa um certo desconforto. Mas, devo admitir, que tem sido para mim um verdadeiro aprendizado. Não da doutrina, mas de mim mesmo. Aprendi, por exemplo, o quanto sou apegado aos meus conceitos e, consequentemente, suscetível a qualquer tipo crítica feita aos mesmos, sendo elas fundamentadas ou não. Além disso tem sido um exercício de paciência e tolerância. Pelo menos, é assim que encaro.
Porém, há ainda algumas idéias propagadas em meio cristão que ainda me causam um certo rebuliço interno. E nesse culto tive de novo esta sensação. Foi bem no finalzinho, o pastor conclamou as pessoas a se levantarem e aceitarem Jesus. Como de costume permaneci sentado. A seguir, veio episódio que originou esse tópico, o pastor fez uma advertência na qual dizia que aqueles que rejeitaram aquela oportunidade deviam ter cuidado, pois talvez não teriam novamente esta chance e, se isso acontecesse, seu destino seria terrível. Naturalmente, ele disse isso eufemisticamente.
Aí entra meu questionamento: Afinal, isso não é coação? Não nos leva a tomar uma determinada atitude por meio de uma ameaça?
Provavelmente, se eu interpelasse o pastor com tal questão, ele negaria ter feito uma ameaça. Ele diria, talvez, que na verdade deu um aviso. Embora, minha intuição inicial a respeito das diferenças entre o que é uma ameaça e o que é um aviso pudesse dar razão a ele, uma análise mais profunda me levaria a discordar.
O limite semântico entre as palavras 'ameaça' e 'aviso' é nebuloso. Há entre os significados dos dois termos não uma fronteira definida, mas uma área incerta que pertence igualmente aos dois lados. O dicionário atesta isso, veja:
ameaça
a.me.a.ça
sf (a1+lat *minacia) 1 Aceno, gesto, sinal ou palavra, cujo fim é advertir, amedrontar, atemorizar etc. 2 Promessa de castigo ou de malefícios. 3 Dir Ato delituoso pelo qual alguém, verbalmente ou por escrito, por gesto ou por qualquer outro meio simbólico e inequívoco, promete fazer injustamente um mal grave a determinada pessoa. 4 Advertência de futura pena. 5 Prenúncio de qualquer coisa má. 6 Intimação.
aviso
a.vi.so
sm (lat ad+visu) 1 Comunicação, notícia. 2 Anúncio, participação. 3 Recado. 4 Admoestação, advertência, repreensão. 5 Recomendação. 6 Conselho. 7 Discrição, juízo. 8 Conceito, opinião. 9 Instrumento de comunicação oficial, emanado de um ministro de Estado.
fonte: Uol - Dicionário Michaelis
Ambas as palavras podem ser usadas com a intenção de advertir, de comunicar da existência de algum perigo vindouro. No entanto, há em 'ameaça' uma certa intenção de incutir o medo, de intimidar, enquanto 'aviso' não leva necessariamente esta carga. Outro aspecto é que numa ameaça, o malefício prometido é uma certeza - pelo menos do lado daquele quem faz a advertência - enquanto no aviso é apenas uma possibilidade. Parece-me inclusive possível dizer que toda ameaça seja também um aviso. No entanto, o inverso não é verdadeiro: nem todo aviso é uma ameaça.
A advertência feita pelo pastor, embora possa ser encarada como um mero aviso, inclina-se muito mais para uma ameaça. Primeiramente, há nela um perigo futuro contra o qual somos advertidos. Segundo, há também uma certeza desse perigo por parte de quem adverte, embora essa certeza não seja necessariamente compartilhada pelo advertido e nem possa ser verificada por nenhum meio razoável. E por fim, o temor é aí a mola que impele o advertido em direção a ação esperada: a conversão.
Acho que podia passar sem essa. O Cristianismo tem virtude suficiente para prescindir de coação psicológica. Talvez, o pastor não tivesse a intenção explícita de ameaçar, embora não me surpreendesse descobrir nele tal intenção num nível inconsciente. Não sei.
Isso me leva a outra questão: vale a pena seguir uma crença que emana do medo?
Mas, isso é assunto para outro post.