Sábado, 22 de Novembro de 2008

A cultura do automóvel

Denomina-se Cultura do Automóvel a importância que o veículo particular assumiu nas sociedades modernas no século 20 (...). O carro é o objeto de consumo mais desejado pela sociedade. A publicidade fala do automóvel como um direito universal, uma conquista democrática. Se fosse verdade e todos pudessem se transformar em felizes proprietários desse meio de transporte, o planeta sofreria de morte súbita por falta de ar. Ou, antes, deixaria de funcionar por falta de energia, afinal resta-nos petróleo para duas gerações apenas.

O automóvel não é um direito universal, e sim um privilégio de poucos. Só 20% da população detém 80% dos carros, embora todos tenham de sofrer as consequências.

(...)

Para vender cada vez mais, a indústria do automóvel está sempre lançando novos modelos, novos desenhos e detalhes, assim como a indústria da moda. O automóvel é mais do que um meio de transporte. Ele é concebido como uma jóia, como um roupa cara e especial, agradável aos olhos do dono e daqueles que o vêem. Seus apelos, na estratégia de marketing, abordam desde a velocidade, potência, aceleração, passando pelo conforto de estar dentro da máquina: ar condicionado, direção hidraúlica, vidros elétricos, som de alta fidelidade e até a preocupação com o cheiro de veículo novo.

Trechos do livreto distribuído pela BHTRANS nas ruas de
Belo Horizonte em sua campanha de conscientização

Sexta-feira, 21 de Novembro de 2008

Tio Buddha!?

Antes eu achava, como a maioria dos ocidentais acham, que o Buddhismo era apenas uma "filosofia de vida". Um modo legal de se encarar as coisas, adaptável às meus pequenos vícios e facilmente descartável quando a situação ficasse difícil (nessas horas melhor rezar, né?). Além disso, era uma boa maneira - eu achava - de impressionar as mulheres pessoas.

Depois, quando comecei estudar a fundo vi que o Buddhismo que tratava-se de fato de uma religião. Exige compromisso, esforço, sacrifício. Mas vai valer a penas quando eu alcançar o objetivo final, ou seja, aquele outro céu chamado de Nirvana.

Mas agora que estou estudando a Lei Originação Dependente já penso diferente: o Buddhismo é na verdade uma grande pedagogia que visa nos ensinar aquilo que não pode ser ensinado.

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É isso Tio Buddha? ;-)

Segunda-feira, 27 de Outubro de 2008

Ressaca da eleição

Começo com uma confissão: não gosto de política. Em especial, não gosto do cenário político do meu país.

Possivelmente, essa é a opinião da maioria dos brasileiros. Lugar comum, portanto. Porém, não é razão suficiente para nos desobrigar de nossas responsabilidades enquanto cidadãos. Isso é o óbvio - ou deveria ser. Mas é preciso estômago de avestruz e muito Sonrisal para acompanhar o desenrolar dessa novela que conserva sempre o mesmo enredo invertendo apenas os papéis de seus atores.

A aversão cresce ainda mais durante o período das eleições. Rostos sorridentes e numerados se sobrepondo nos postes e muros, santinhos que não tem nada de santos espalhados aos montes pelo chão, jingles irritantes martelando na nossa cabeça, trocas de acusações e sucessão de ridículos na tv... E lista se extende.

A política tem sido, talvez desde sempre, a busca de interesses pessoais, uma forma de se arranjar na vida e de quebra alcançar algum respeito (ou seria despeito?). Pelo menos, é o que um breve folear nos livros da história parece apontar, embora haja alguns casos isolados onde a política foi um instrumento para o bem comum. Infelizmente, isso está mais para exceção do que para regra.

Mas, apesar de tudo isso, não dá para simplesmente se isentar. Nós, cidadãos comuns, nos esquecemos que somos nós que governamos o país - e o mundo. Se as coisas estão assim a culpa é nossa. Talvez não sintamos essa culpa porque ela se dilui nos milhões de indivíduos que somos. No entanto, a responsabilidade, ainda que não assumida, permanece.

Acompanhar o revolver político do país, manter-se informado a fim de poder votar com algum discernimento é o mínimo que podemos - e devemos - fazer. A política é podre, nojenta e às vezes revoltante. Sim, é tudo isso. Mas o fato é que não dá para limpar o chiqueiro sem se sujar...

Quinta-feira, 16 de Outubro de 2008

Já traiu ou foi traído hoje?

Traição. Quem quer ser traído? O simples pensar nessa possibilidade é suficiente para nos revirar o estômago e fazer os vapores da vingança emanar dos pontos mais pútridos de nossas mentes. Traição é algo que a maioria de nós ao mesmo tempo teme e odeia. Os bonecos de Judas que anualmente malhamos estão aí para testemunhar esse fato com seus corpos em chamas.

Eu mesmo conheço uma pessoa relativamente próxima a mim que trai seu(sua) parceiroa(a) constantemente. Não sou único a saber disso. Na realidade, acho que todos os nossos conhecidos em comum sabem, exceto é claro o(a) traído(a), que como já diz a sabedoria popular é o(a) último(a) a saber. 

Confesso que essa situação me causa um certo desconforto. Me pergunto até onde sou conivente com a mentira por saber de tudo (?!) e não tomar nenhuma atitude. Afinal, como todos dizem: "não é da minha conta".

Mas qual seria a melhor atitude a tomar nesses casos?

Tomar conhecimento de coisas desse tipo causa em nós raiva; raiva acompanhada de um impulso para contar tudo revelando a verdade e fazer "justiça". Isso é esperado e de certa forma lógico. Mas também - o que pode ser difícil admitir - nos faz sentir uma certa ponta de prazer. Talvez o prazer de saber uma história picante, cheia de detalhes sórdidos. Talvez o simples prazer da desgraça alheia. Não sei. Sei porém que é comum que as pessoas se sintam desse modo. Aliás, é essa tendência que alimenta a nada pequena audiência das novelas da Globo...

Talvez esses sentimentos tenham algo a ver com nossa predisposição a adotar uma visão polarizada de tais situações. Quem trai é o vilão e o traído a vítima. Daí vamos direto para a aparentemente óbvia conclusão de que o primeiro é mau e o segundo bom pois estranhamente parece que algum lugar das nossas cabeças está registrado que os bons foram feitos para sofrer. Talvez por nos identificamos com a "vítima", com o "bom", passamos a sentir que a "agressão" seja dirigida a nós e - talvez - por isso desejamos "fazer justiça", ou seja, revelar toda a verdade. No entanto, esse desejo acaba sendo apenas uma outra atitude egoísta que visa apenas o nosso próprio benefício psicológico ou ao menos algum tipo de satisfação dessa ordem. (Na verdade, mesmo esse post começou como uma maneira controlada de lidar o meu próprio desejo de contar a verdade).

Talvez. Talvez.

Em todo caso, parece-me haver nessa concepção algo de enganoso que surge a partir de um julgamento equivocado onde condenamos uma pessoa a ser uma vítima sofredora e uma outra a tornar-se uma vilã sem coração e portanto digna de exemplar punição.
Talvez, haja nessa história apenas seres humanos buscando a própria felicidade de uma maneira desajeitada e, no final das contas, com consequências desastrosas.

Mas afinal, não é essa a história de todos nós?

Terça-feira, 14 de Outubro de 2008

Um outro retorno

Faz tempo que não escrevo nada aqui. Setenta e quatro dias para ser mais preciso. Sinto inclusive uma certa culpa por essa ausência prolongada. Tenho até evitado olhar para o botão na barra de favoritos do meu navegador (Firefox, claro!) que me traz a este blog... Um pouco de culpa pode até ser útil para nos lembrar das coisas com as quais nos comprometemos mas que, por um motivo ou outro, deixamos para trás.

Tentar, desistir, senti-se culpado, voltar, tentar de novo. Tudo isso faz parte da vida. Agora é meu momento de voltar, tentar de novo e poder encarar de frente a URL deste blog.

Sexta-feira, 1 de Agosto de 2008

Sobre deuses e parques de diversões


Montanha-Russa gentilmente cedido por Rodrigo Feistauer
Domingo último fui a um parque diversões junto com minha esposa e sua irmã caçula. Já que estava lá mesmo deixei meu lado criança emergir e apesar de já ter almoçado abundantemente fui dar uma volta na montanha russa. Claro que não era nada que se comparasse àquelas gigantes que vez ou outra vejo na tv. Eu diria que numa escala de 1 a 10 de montanhas russas, esta ganharia, no máximo, 0.8. Mas, ainda assim, era o suficiente para injetar uma dose considerável de adrenalina nas minhas veias. Isso sem falar nos riscos para o fluxo correto da digestão de meu generoso almoço...

Em todo caso, logo me vi no final de uma longa fila, envolvido por uma massa de adolescentes e crianças. Os gritos, os rumores metálicos e a expressão mal encarada do operador faziam parecer que íamos todos para uma câmara de execuções. Para mim não era muito diferente. Ficava observando os vagões correndo pelo circuito me indagando o que aconteceria se algum deles se desprendesse dos trilhos ou se alguma peça da estrutura de sustentação se rompesse. Imagino que eu possa me considerar um sujeito medroso precavido. Não demorou muito tempo e chegou nossa vez. Com séria dignidade tomei meu lugar no vagão ao lado de minha cunhada de nove anos que ria numa empolgação descontrolada.

Enquanto éramos içados para o ponto mais alto da estrutura um pensamento invadiu minha mente: "Que deus nos proteja". E depois um outro: "Deus? Que deus?". Mas antes que eu pudesse responder a mim mesmo, fomos lançados numa descida vertiginosa, seguida de curvas perigosamente inclinadas, de tal modo que eu tinha a impressão que a qualquer momento minha cabeça se espatifaria numa das colunas de sustentação. Tudo isso acompanhado por gritos desesperados, dentre os quais alguns eram meus próprios.

Felizmente foi uma volta só. Saí com o corpo meio mole e um paradoxal desejo de ter mais uma dose daquelas sensações. É, adrenalina vicia mesmo.

No entanto, o que mais me chamou a atenção, aquilo que mais me intrigou, foi aquele pensamento se esgueirando sorrateiramente por dentro de mim em busca de refúgio naquele deus que desde cedo fui ensinado a procurar em ocasiões de perigo.

Já faz um bom tempo que tenho procurado não me apegar mais a este deus. Procuro não depender dele para me confortar ou me dar forças. Na minha humilde opinião, esse moço velho como o universo é simplesmente uma ilusão. Uma ilusão às vezes útil, mas que como tal carece de realidade. Mas embora intelectualmente eu não acredite em deus, lá no fundo tem um pedaço de mim que ainda crê.

Bem, não sei se 'crer' é a melhor palavra... Talvez um exemplo possa me ajudar a explicar: quando criança e por muitos anos eu não deixava meu chinelo virado, pois se o fizesse algo de muito ruim aconteceria. Então, zelava pela posição correta do meu chinelo a fim de preservar a mim e às pessoas que amava daquele grande mal desconhecido. Naturalmente, hoje em dia não acredito mais nisso. No entanto, sempre que vejo um chinelo virado sinto um certo receio e, às vezes, por via das dúvidas, não me contenho e coloco-o na posição correta.

Minha relação com deus é mais ou menos desta maneira. É uma idéia que permanece enraizada dentro de mim, como um tronco de uma árvore já cortada, do qual vez ou outra brota um pequeno galho verde.

Eu costumava me revoltar contra isso. No entanto, tal postura me causou muito mal. Com o tempo aprendi a aceitar este pequeno deus como parte de mim mesmo. Às vezes ele me causa certa impaciência - como na montanha russa - mas na maior parte das vezes me dou bem com este velhinho. Reconheço sua presença e ele parece se satisfazer com isso. E embora ele possa me dar força, coragem e determinação, procuro não invocá-lo. Pois no fim, ele é apenas uma parte de mim e como tal seu poder se limita às minhas próprias possibilidades.

Sexta-feira, 18 de Julho de 2008

Realidade

Costumava-se acreditar que conhecer o nome de alguma coisa significava ter poder sobre ela. Vemos isso na Bíblia quando Deus leva um representante de cada espécie animal perante a Adão para que este lhe dê um nome e assim estabeleça seu domínio sobre a natureza.

Nomear é também definir - impor limites. É seccionar a realidade em fragmentos que podemos submeter ao nosso entendimento. Isto é necessário pois não somos capazes de apreender o real como um todo e também porque possibilita que nos comuniquemos uns com os outros.

Por outro lado, ao dar nome a uma certa coisa estamos também aprisionando-a numa gaiola de idéias e conceitos, embrulhando-a num pacote personalizado o qual podemos dar de presente, colocar como um enfeite nas prateleiras de nosso ego ou - o que está mais em moda hoje em dia - simplesmente vender.

Entretanto, este processo de divisão, categorização e armazenamento ocorre apenas em nossas mentes. Mas estamos tão acostumados a ele que já não conseguimos enxergar os elos que conectam as peças deste quebra-cabeça mental. Vemos cada uma destas entidades mentais como objetos reais e independentes. No entanto, para além dos limites da nossa percepção, a realidade permanece como sempre foi: una e indivisível.

Segunda-feira, 14 de Julho de 2008

Ameaça ou aviso

Por motivos particulares - os quais quem me conhece sabe bem quais são - vez por outra acabo num culto evangélico. O que deve parecer estranho. Afinal, quem acompanha esse blog (alguém por aí?) já deve ter detectado minhas inclinações budistas. Na verdade, acho que posso me considerar um verdadeiro ponto de interseção de várias tradições espirituais pois além dos elos religiosos citados a pouco, há ainda o Catolicismo no qual fui criado. Tanto que costumo dizer que sou Católico por tradição e Budista por convicção. E estou ainda pensando em incluir também "evangélico por obrigação".

Em todo caso, ontem, domingo, foi uma das ocasiões em que me vi novamente numa igreja evangélica. Confesso que isso ainda me causa um certo desconforto. Mas, devo admitir, que tem sido para mim um verdadeiro aprendizado. Não da doutrina, mas de mim mesmo. Aprendi, por exemplo, o quanto sou apegado aos meus conceitos e, consequentemente, suscetível a qualquer tipo crítica feita aos mesmos, sendo elas fundamentadas ou não. Além disso tem sido um exercício de paciência e tolerância. Pelo menos, é assim que encaro.

Porém, há ainda algumas idéias propagadas em meio cristão que ainda me causam um certo rebuliço interno. E nesse culto tive de novo esta sensação. Foi bem no finalzinho, o pastor conclamou as pessoas a se levantarem e aceitarem Jesus. Como de costume permaneci sentado. A seguir, veio episódio que originou esse tópico, o pastor fez uma advertência na qual dizia que aqueles que rejeitaram aquela oportunidade deviam ter cuidado, pois talvez não teriam novamente esta chance e, se isso acontecesse, seu destino seria terrível. Naturalmente, ele disse isso eufemisticamente.

Aí entra meu questionamento: Afinal, isso não é coação? Não nos leva a tomar uma determinada atitude por meio de uma ameaça?

Provavelmente, se eu interpelasse o pastor com tal questão, ele negaria ter feito uma ameaça. Ele diria, talvez, que na verdade deu um aviso. Embora, minha intuição inicial a respeito das diferenças entre o que é uma ameaça e o que é um aviso pudesse dar razão a ele, uma análise mais profunda me levaria a discordar.

O limite semântico entre as palavras 'ameaça' e 'aviso' é nebuloso. Há entre os significados dos dois termos não uma fronteira definida, mas uma área incerta que pertence igualmente aos dois lados. O dicionário atesta isso, veja:

ameaça
a.me.a.ça
sf (a1+lat *minacia) 1 Aceno, gesto, sinal ou palavra, cujo fim é advertir, amedrontar, atemorizar etc. 2 Promessa de castigo ou de malefícios. 3 Dir Ato delituoso pelo qual alguém, verbalmente ou por escrito, por gesto ou por qualquer outro meio simbólico e inequívoco, promete fazer injustamente um mal grave a determinada pessoa. 4 Advertência de futura pena. 5 Prenúncio de qualquer coisa má. 6 Intimação.

aviso
a.vi.so
sm (lat ad+visu) 1 Comunicação, notícia. 2 Anúncio, participação. 3 Recado. 4 Admoestação, advertência, repreensão. 5 Recomendação. 6 Conselho. 7 Discrição, juízo. 8 Conceito, opinião. 9 Instrumento de comunicação oficial, emanado de um ministro de Estado.

fonte: Uol - Dicionário Michaelis

Ambas as palavras podem ser usadas com a intenção de advertir, de comunicar da existência de algum perigo vindouro. No entanto, há em 'ameaça' uma certa intenção de incutir o medo, de intimidar, enquanto 'aviso' não leva necessariamente esta carga. Outro aspecto é que numa ameaça, o malefício prometido é uma certeza - pelo menos do lado daquele quem faz a advertência - enquanto no aviso é apenas uma possibilidade. Parece-me inclusive possível dizer que toda ameaça seja também um aviso. No entanto, o inverso não é verdadeiro: nem todo aviso é uma ameaça.

A advertência feita pelo pastor, embora possa ser encarada como um mero aviso, inclina-se muito mais para uma ameaça. Primeiramente, há nela um perigo futuro contra o qual somos advertidos. Segundo, há também uma certeza desse perigo por parte de quem adverte, embora essa certeza não seja necessariamente compartilhada pelo advertido e nem possa ser verificada por nenhum meio razoável. E por fim, o temor é aí a mola que impele o advertido em direção a ação esperada: a conversão.

Acho que podia passar sem essa. O Cristianismo tem virtude suficiente para prescindir de coação psicológica. Talvez, o pastor não tivesse a intenção explícita de ameaçar, embora não me surpreendesse descobrir nele tal intenção num nível inconsciente. Não sei.

Isso me leva a outra questão: vale a pena seguir uma crença que emana do medo?

Mas, isso é assunto para outro post.

Segunda-feira, 16 de Junho de 2008

Qual o preço do paraíso?


What Price Paradise? gentilmente cedido por The Other Pete

Falta alguma coisa na nossa vida. Acho que todos temos essa sensação. Sofremos de uma profunda insatisfação que nos urge a tentar preenchê-la com toda sorte de prazeres. É como se houvesse no fundo de nosso ser um buraco de forma indefinida que a cada instante engole uma pequena parcela de nós mesmos. A incapacidade de compreender e preencher esse vazio torna nossa existência repleta de aflições.

Talvez por isso a maioria de nós crê que de alguma maneira escaparemos desta situação para um realidade onde tais dores simplesmente não existirão. Esta outra realidade é o que chamo aqui de paraíso.

Os diferentes paraísos

Virtualmente, para cada pessoa há uma concepção particular de paraíso. Para uns, é uma região circunscrita no tempo e no espaço. Nesse lugar nada falta e reina a mais pacífica harmonia. Outros o consideram como um estado em que a consciência permanece imersa num oceno de profunda felicidade. Enquanto alguns aguardam obter no paraíso o êxtase dos sentidos, outros anseiam pela paz espiritual, e outros ainda esperam por ambas as coisas. Há também aqueles que simplesmente se calam incertos diante de tais possibilidades retendo para si apenas a certeza de que lá é melhor do que aqui.

Muitas vezes usamos o termo salvação para se referir ao paraíso. Esta palavra dá a idéia que nossa situação nem sempre foi assim e que caímos neste mundo por algum acidente de percurso e agora queremos sair. Algumas formas religiosas vêem na figura de algum deus como o único capaz de nos resgatar. Dependendo da crença, esse deus assume para si o ônus de nossa salvação ou simplesmente aguarda que paguemos o preço individualmente. Nesse último caso a moeda poderá variar, indo da fé até o amor, passando pelo medo, podendo ou não exigir a prática de boas ações.

Mas a despeito destas diferenças, todas essas maneiras de enxergarmos o paraíso possuem um denominador comum: extinção dos sofrimentos que caracterizam este mundo. Além disso, cada uma delas pressupõe um conjunto de atitudes que devem ser tomadas a fim de garantir nossa presença nesta nova realidade - este é o preço do paraíso.

Qual é o seu paraíso?

Esta questão é mais difícil do que pode parecer a princípio. Especialmente hoje, quando temos uma miríade de tradições religiosas ao alcance de nossos dedos. Cada uma apontando para um paraíso diferente e exigindo uma moeda particular para nos levar até lá.

São tantas as formas que esta esperança de salvação assume que acabamos por nos sentir atordoados e perdidos diante de tantas possibilidades. Isso me faz lembrar de um refrão de uma música dos Engenheiros do Havaí.

O céu é só uma promessa
Eu tenho pressa
Vamos nessa direção
Atrás de um sol que nos aqueça
Minha cabeça não aguenta mais

No final, não há uma resposta definitiva para esta questão. Cada pessoa terá sua solução particular. No final, efetivamente pagamos muito mais por uma promessa do que pela salvação em si. A certeza de obtermos o que esperamos só virá mesmo com o tempo - se vier. Até lá, tudo que nos resta é o preço que pagamos pelo paraíso.

Quarta-feira, 11 de Junho de 2008

Se eu encontrasse a Verdade, patentearia, engarrafaria e vendia baratinho


The truth gentilmente cedido por chartno3
Não é isso que a boa parte das religiões tentam fazer? Nos vender uma suposta verdade a preço de banana? São diferentes embalagens e marcas, mas sempre o mesmo rótulo. Mas o produto nunca é autêntico. O pior é que nesses casos não dá para acionar o PROCON. Afinal, o produto é invisível e a moeda de compra - nossa alma - imaterial! Que fazer então? Como encontrarmos a verdadeira verdade nas infinitas prateleiras deste supermercado espiritual?

Não desconecte agora. Nós temos a resposta!

O detector da verdade

Sensacional, nós já somos equipados de fábrica com o único instrumento aprovado para reconhecer a Verdade! Incrível!

Isso mesmo! Ele está aí dentro de você. Talvez guardado num quartinho empoeirado nos recônditos de sua alma. Mas está aí. Pode ter certeza. Normalmente é chamado de "Bom Senso", ou algo que valha. Mas muitos preferem não usá-lo. Afinal, por que fazê-lo já que temos o Jornal Nacional, o Google, a Wikipedia e o Fantástico para nos dar a informação mais precisa?

O produto

A verdade que vendem por aí é um produto acabado. Basta misturar água batismal e pronto! Mas não se engane! A Verdade não é igual miojo. É o mal de nosso tempo pensar que seja. Hoje tudo precisa ser instantâneo. No entanto, a Verdade é antes um processo a ser compreendido e realizado.

Interessado? Então não desconecte ainda. Saiba onde você pode obter a sua tão sonhada Verdade!

Como obter?

Nas melhores casas do ramo: a saber, dentro de cada um de nós. "Estranhamente", já possuímos a Verdade da mesma forma que dispomos dos meios necessários para reconhecê-la e realizá-la.

Incrível! Ela não precisa ser comprada, ganha ou alugada, basta apenas ser reconhecida e realizada!

Segunda-feira, 9 de Junho de 2008

Metablogging

O primeiro sintoma da falta de assunto são posts falando do ato de escrever posts. hehe

Posts não têm fim

A primeira versão de um post é sempre uma droga.
Obter um texto decente, que mereça ser publicado, é um processo que toma tempo. Ao menos comigo é assim.
Escrevo, reviso, copio, apago, colo, reescrevo, reviso novamente, tomo um café, apago tudo e escrevo de novo... Até finalmente encontrar um bom texto legal - observe: "legal", não "ótimo", ainda não consegui um "ótimo". Eventualmente acabo ficando satisfeito, ou simplesmente me canso de fazer edições. Este é o momento de colocar no ar o que escrevi.
Mas o tempo passa e quando retorno e releio aquele texto, acho-o uma droga de novo... Um post, como qualquer outro texto, nunca é concluído.
É um trabalho meio ingrato, não é não?
E o pior é que gosto! ;-)

Sábado, 7 de Junho de 2008

O dia que acertei na quina


Broken Toe gentilmente cedido por mstocks
Antes de ontem acertei o dedinho do meu pé esquerdo na quina do sofá. Doeu um bocado. Quem já passou por esta experiência sabe como é.

Dizem que no próximo degrau evolucionário da humanidade esta pequenina parte de nossa anatomia tende a desaparecer dado a sua importância insignificante. Mas, a despeito disso, naquele instante, meu pobre dedinho se tornou tão importante quanto o meu próprio coração. De fato, naquela hora ele pulsava num vermelho intenso. Por um momento, enquanto meu dedo latejava de dor, refleti sobre a insubstancialidade da dor. Mas não fui muito longe nesta reflexão pois logo alguns palavrões começaram a se manifestar em minha mente...

Em episódios como esse fico imaginando como homens do porte de Buda, Jesus, Maomé, etc reagiam a esses pequenos acidentes mundanos. Talvez um dia eu venha a descobrir.

Hoje aquele acidente já é história - história que tive de contar e recontar no trabalho e o faço aqui novamente. Felizmente, as radiografias mostraram que não quebrei nada (essa radiografia aí do lado não é minha, tirei do Flickr). No mais, acabei ganhando um dia de folga :-). Quanto ao meu dedinho, ele já não está mais vermelho, apenas um pouco roxo, e lentamente retorna a sua habitual insignificância.

Sexta-feira, 6 de Junho de 2008

Ser e Ter


DSC07316 gentilmente cedido por terry j allen
Dois verbos, dois modos de ver o mundo.

"Ter" envolve o acúmulo de bens, a busca pela tranquilidade material. Logo, volta-se para objetos exteriores a nós. Semanticamente, dá a idéia de que a posse - o ato de ter - é transitória, em algum momento perderemos aquilo que possuímos. Esta palavra passa também uma sensação de que o objeto é mantido sob nossa posse mediante esforço, cuja suspensão poderia implicar na perda da coisa possuída.

Já o verbo "ser" relaciona-se a uma realidade que nos é interna, que de algum modo se confunde com nossa própria identidade. Refere-se a uma condição persistente que se mantém de maneira indefinida ao longo do tempo.

Materialistas como somos, elegemos o verbo "ter" como a mais importante palavra de nosso vocabulário. Hoje, somos o que temos. Lutamos para construir uma felicidade feita de coisas as quais empilhamos a nossa volta, como uma muralha para nos proteger contra todo o desconforto e sofrimento.

No entanto, há nessa estratégia uma pequena falha: tais aflições nem sempre vêm de fora, freqüentemente elas surgem de dentro de nós mesmos.

"Ser" deveria ter mais importância para nós. Ao invés de sermos o que temos deveríamos ter o que somos. E isso envolve construir uma felicidade genuína e orgânica, que se faz de dentro para fora.

Estados de consciência